quarta-feira, 28 de julho de 2010

Num piscar do cérebro


Diversas vezes ao dia piscamos o olho. Em teoria, a cada piscada experienciamos um momento de completa escuridão. A cada minuto, temos 6 segundos de completa escuridão que, somados por toda a vida, seriam alguns anos passados no escuro, inconscientes mesmo estando acordados. Por que isso acontece? A ideia é que o cérebro interpreta a piscada, editando os momentos escuros da nossa experiência.

E por que piscamos? Não me refiro a piscadas induzidas, códigos de corte ou qualquer outra forma de comunicação. Qual seria a real razão daquela piscada involuntária? A maioria das pessoas vai acabar respondendo que piscamos para lubrificar o olho. Mas, se fosse isso mesmo, piscaríamos menos em ambientes mais úmidos ou piscaríamos mais em dias secos, por exemplo. Pois não é que cientistas testaram essa ideia, comparando a quantidade de piscadas de pessoas dentro e fora de saunas? Resultado: a umidade não afeta a frequência de piscadas.

Novos conceitos sobre o assunto surgiram de um “piscólogo” amador: Walter Murch, que escreveu o livro “In the Blink of an Eye”. Cinéfilos vão reconhecer esse nome. Walter é editor de filmes famosos, como O Poderoso Chefão. Sua atividade como editor consiste em retirar cenas que não serão usadas e unir pedaços do filme que foram gravados de forma independente. Quanto assistimos a um filme editado e vemos as diversas tomadas, os vários ângulos de uma mesma cena, interpretamos tudo isso como se fosse um contínuo. Na realidade, a cena final é fruto de um árduo trabalho de edição.

Walter tem uma técnica especial para emendar cenas de um filme. O que ele faz é assistir a cena a ser editada diversas vezes seguidas e, intuitivamente, para a cena quandoacredita que deva ser cortada e unida com outra parte. A intuição é confirmada repetindo-se o processo diversas vezes, até encontrar o momento exato em que acontece a maioria dos cortes.

Em cenas envolvendo pessoas, Walter notou que o momento do corte da cena é justamente quando o ator pisca. A partir dessa observação, ele criou uma teoria para o significado do piscar em humanos. Não seria induzido pela umidade do globo ocular ou ambiente, mas as piscadas funcionariam como uma forma de pontuação mental. Uma ideia certamente atraente, mas sem nenhuma base científica.

Mas dois pesquisadores japoneses, Tamami Nakano e Shigeru Kiazawa, resolveram testar essa hipótese experimentalmente. Eles fizeram o experimento com uma série de indivíduos, aplicando eletrodos nas pálpebras de cima e de baixo do olho de cada pessoa. Com a piscada, os eletrodos se aproximavam, produzindo uma corrente elétrica sensível o suficiente para que pudesse ser gravada pelos pesquisadores.

Os indivíduos assistiram a uma película enquanto eram observados. Cada um viu o mesmo filme três vezes. O filme escolhido foi Mr. Bean, uma comédia britânica com pouquíssimos diálogos verbais. A maioria das cenas cômicas são mudas, restando apenas o estímulo visual. Num filme de 2 horas, você perde algo em torno de 16 minutos piscando. O pior, nem percebemos que perdemos isso tudo.

Os resultados obtidos foram surpreendentes. Cada pessoa pisca nos exatos mesmos momentos ao ver o filme repetidamente. Pode-se prever quando uma pessoa vai piscar em cada cena. Mas mais estranho ainda, as cenas eram comuns entre diferentes pessoas. Ou seja, eles descobriram que a grande maioria das pessoas entravam em sincronia, piscando exatamente nos mesmos momentos do filme.

Para se ter uma ideia dos resultados, imagine a cena: você num cinema com 200 pessoas. Fica escuro, o filme rola e você começa a assistir. Na sua primeira piscada, outras 70 pessoas piscam exatamente ao mesmo tempo junto com você, inconscientemente, como asas de borboletas batendo ao mesmo instante.

A explicação parece ser que as pessoas se sincronizam de forma intuitiva com a história do filme. As piscadas tendem a acontecer entre cenas menos importantes, hiatos na história. A sincronicidade das piscadas aconteciam geralmente na conclusão de uma ação do ator. Por exemplo, numa das cenas Mr. Bean entra numa sala e fecha a porta. No momento exato em que o ator termina de fechar a porta, naquele milésimo de segundo, todo mundo pisca.

Cientistas afirmam que o cérebro não permite perder momentos importantes na história, usando a piscada como uma forma de pontuação do pensamento. A questão sobre o motivo da piscada ainda não foi respondida ou mesmo por quê piscamos de qualquer forma. Será mesmo que só conseguimos processar a vida em pedaços? Em curta-metragem?

Bom, talvez seja isso mesmo. Só processamos ideias curtas e precisamos de intervalos para “salvar” as ideias antes de começarmos a interagir com outras. A piscada seria o momento que o cérebro encontra para estocar a informação e seguir em frente. Certamente algo fundamental a ser descoberto sobre o cérebro e que pode trazer pistas sobre a evolução da cognição humana.

Será que a frequência das piscadas vem se alterando com as gerações? Como medir isso? Poderíamos usar filmes antigos ou teríamos que medir agora e esperar que alguém faça a comparação no futuro? E qual a diferença da frequência de piscadas entre nossos “primos” mais próximos, como chimpanzés e bonobos?


Texto visto e copiado Daqui

Um comentário:

Laurene Veras disse...

Que curioso...vamo piscááááá! :p